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Como anunciar um imóvel que o avaliador e o banco consigam usar: a área errada derrubou 13 de 18 anúncios em setembro
Todo anúncio é lido por quem precifica o bairro: avaliador, corretor e banco do comprador. Entre 19/08 e 27/09/2026, o Imovel90 leu 337 anúncios reais e descartou 108. Nos últimos 20 dias, a área que não bate com a página derrubou 13 de 18. Os cinco campos que decidem se o seu anúncio vira referência de preço.
Publicado em · 10 min de leitura
Quem anuncia um imóvel escreve pensando no comprador. Mas o anúncio é lido por mais gente do que parece: o corretor que monta a opinião de valor do vizinho, o engenheiro do banco que vai avaliar o imóvel quando aparecer um comprador financiado, e qualquer avaliador que use o método comparativo da NBR 14653, que é o método padrão no Brasil. Para todos eles, o seu anúncio é um dado de mercado. E um dado de mercado só serve se os números baterem.
Este post mostra, com números da nossa própria base, o que faz um anúncio ser descartado da conta de quem precifica, e como escrever o anúncio para que ele conte a seu favor. Todos os números do Imovel90 abaixo foram extraídos em 27/09/2026. As fontes externas foram consultadas na mesma data.
O que a nossa base mostra: 1 em cada 3 anúncios não serve como referência
A cada avaliação, o Imovel90 busca anúncios comparáveis nos portais, confere cada um deles (área, preço, bairro, página de origem) e aplica o método comparativo. Os anúncios que não passam ficam registrados com o motivo da exclusão, e é esse registro que dá os números a seguir.
Entre 19/08 e 27/09/2026, foram 73 avaliações e 337 anúncios lidos. Desses, 108 ficaram fora da conta (32%). Os motivos com registro detalhado:
| Motivo da exclusão | Anúncios |
|---|---|
| Valor homogeneizado fora de ±30% da mediana da amostra | 25 |
| Área gravada no anúncio não confere com a própria página do anúncio | 19 |
| R$/m² incompatível com o nível de preço do bairro (provável outro mercado) | 12 |
| R$/m² fora do intervalo de 0,5× a 2× da média da amostra | 9 |
| Excluídos sem motivo detalhado registrado (avaliações mais antigas) | 43 |
O primeiro motivo é estatístico: o anúncio destoa demais dos vizinhos. O terceiro e o quarto são de mercado: o anúncio é de outro padrão ou de outro bairro com nome parecido. O segundo é erro de preenchimento, e é o único que o próprio anunciante pode consertar hoje à tarde.
Setembro piorou: a área virou o motivo número 1
A checagem de área contra a página do anúncio entrou no motor em setembro. Desde então, ela passou na frente de todos os outros motivos. Nos últimos 20 dias (08/09 a 27/09/2026), foram 12 avaliações e 41 anúncios lidos. 18 ficaram de fora, e 13 desses 18 caíram porque a área gravada não batia com a área que a própria página do anúncio informava.
O tamanho do erro não é de arredondamento. Nos 19 casos registrados desde agosto:
- a discrepância mediana foi de 1,9 vez (uma área era quase o dobro da outra);
- em 9 dos 19 casos uma área era o dobro ou mais da outra;
- o pior caso foi uma casa em Petrópolis (RJ) com 140 m² no título e cerca de 700 m² no texto; em Cascavel (PR), uma casa aparecia com 80 m² em um campo e 402 m² em outro.
O padrão é sempre o mesmo: casa. Nas 12 avaliações dos últimos 20 dias, 10 eram de casas (8 de rua e 2 em condomínio), e é na casa que o anunciante mistura área do terreno, área construída e área útil no mesmo anúncio. O portal pede um número, o título traz outro, o texto traz um terceiro. Quem lê de fora não tem como saber qual é o denominador do R$/m², e o único procedimento seguro é descartar.
Por que isso custa dinheiro para quem anuncia
Parece problema do avaliador, não do vendedor. Não é. Três efeitos:
- O seu anúncio deixa de puxar o preço do bairro. Se você pede acima da média e o seu anúncio é descartado da conta do avaliador, o preço de referência do bairro fica menor do que ficaria com você dentro. Quando o comprador pesquisar, vai encontrar um bairro mais barato do que o que você acha que está vendendo.
- O banco do comprador vai ler o mesmo anúncio. Na avaliação para financiamento, o engenheiro monta uma amostra de anúncios da região e, quando possível, olha o anúncio do próprio imóvel. Área inconsistente é sinal de alerta que abaixa o grau de fundamentação do laudo e, na prática, o valor. O que acontece depois está em O banco avaliou meu imóvel abaixo do valor da venda.
- O comprador desconfia antes de visitar. Título com 140 m² e texto com 700 m² não passa a ideia de imóvel grande. Passa a ideia de vendedor que não sabe o que está vendendo, e isso vira desconto na mesa. Sobre como responder quando a proposta vem baixa, veja o passo a passo da contraproposta.
Os cinco campos que decidem se o anúncio vira referência
A NBR 14653-2 (imóveis urbanos) lista o que um dado de mercado precisa ter para entrar em uma avaliação: identificação do imóvel, localização, características físicas (área, idade, padrão), preço e condição da oferta. Traduzindo para o formulário do portal, são cinco campos que valem mais que qualquer texto de vendas.
1. Área, e só uma área por conceito
Informe área útil (ou privativa) em um campo e área total em outro, e use os mesmos números no título, na descrição e na ficha. Para casa, separe área do terreno de área construída, e diga qual é qual. A regra do nosso motor é simples e provavelmente é a de qualquer avaliador cuidadoso: se a área no campo do portal diverge mais de 30% da área que aparece no título ou na URL do próprio anúncio, o anúncio sai da conta.
Qual área usar como base do R$/m² é assunto de outro post: área útil, privativa ou total: qual metragem entra no preço do metro quadrado. O resumo: para apartamento, útil ou privativa; para casa, construída, com o terreno informado à parte.
2. Bairro com o nome que está na matrícula ou no IPTU
Dos 337 anúncios lidos, 12 saíram da conta por parecerem de outro mercado: R$/m² a menos da metade ou a quase o dobro do nível do bairro declarado. Boa parte disso é bairro "emprestado": o imóvel fica em um bairro mais simples, mas o anúncio usa o nome do bairro vizinho valorizado. Além de o comprador perceber na visita, o anúncio deixa de servir como referência para os dois bairros. Use o nome que consta no carnê do IPTU.
3. Vagas de garagem como número, não como adjetivo
Em 252 dos 337 anúncios (75%) o número de vagas não estava em campo legível, só no texto ("ótima garagem", "vagas para 2 carros na frente"). Vaga é um dos fatores de homogeneização do método comparativo: um avaliador ajusta o preço do comparável pelo número de vagas antes de comparar. Se o campo está vazio, o ajuste não é feito ou é feito no chute. Preencha o campo numérico, e se a vaga é coberta ou descoberta, demarcada ou não, diga na descrição.
4. Quartos e suítes no campo certo
Só 7 anúncios em 337 vieram sem número de quartos, então esse campo o mercado já aprendeu a preencher. O erro comum é contar suíte duas vezes ("3 quartos + 1 suíte" quando são 3 quartos sendo 1 suíte) ou chamar de quarto o escritório sem janela. Como o comprador filtra por número de quartos, o anúncio inflado aparece para quem procura algo maior e some para quem procura exatamente o que você tem.
5. Preço com data
Nenhum dos 337 anúncios trazia a data de publicação de forma legível na leitura. Isso importa porque um anúncio parado há 200 dias ao mesmo preço não é referência de valor: é referência de preço que o mercado recusou. Quem avalia trata anúncio antigo com desconto maior (o fator oferta já desconta o anúncio novo; o velho merece mais). Se você reduziu o preço, republique o anúncio em vez de só editar o número, e escreva na descrição desde quando o valor vale.
O que não entra na conta de ninguém (e ocupa o espaço do que entra)
- Adjetivos de tamanho ("amplo", "espaçoso") no lugar do número.
- "Valor a combinar" ou "consulte". Anúncio sem preço não é dado de mercado, é curiosidade. Se o problema é não saber quanto pedir, o caminho é descobrir o valor antes de anunciar, não esconder o preço.
- Condomínio e IPTU omitidos. O comprador financiado precisa desses dois números para a conta de renda do banco, e o avaliador usa o condomínio como indicador de padrão.
- Fotos de imóvel decorado que não é o seu ou perspectiva de projeto para imóvel pronto.
Se você anuncia com corretor: o que exigir
O anúncio publicado por corretor ou imobiliária tem regra própria de identificação. A Resolução COFECI nº 1.065/2007 obriga que toda divulgação traga a sigla CRECI seguida do número de inscrição e da letra F (pessoa física) ou J (pessoa jurídica), em tamanho de pelo menos 25% da fonte usada para o nome. Anúncio sem CRECI legível é anúncio que um avaliador cuidadoso trata com desconfiança, porque não dá para saber quem responde por aqueles números.
Independentemente disso, peça para revisar a ficha antes da publicação: área útil, área total, bairro, vagas, quartos, condomínio, IPTU. É o vendedor quem paga a comissão e quem sofre o desconto se a ficha estiver errada. Como se dividem essas responsabilidades está no guia vender imóvel sozinho ou com corretor.
O contexto de setembro: mais compradores dependendo do banco
Em 16/09/2026 o Copom reduziu a Selic pela quinta reunião seguida, de 14,00% para 13,75% ao ano, e o comunicado evitou se comprometer com o ritmo dos próximos cortes. Juro de financiamento responde à Selic com atraso de meses, então o comprador que aparecer para o seu imóvel nos próximos 90 dias ainda vai depender pesadamente da avaliação do banco para fechar. A conta de quanto do preço o banco financia está em quem financia decide o seu preço.
Tradução prática: o anúncio que o engenheiro do banco consegue usar sem ressalva é o anúncio que ajuda a venda a não travar no crédito.
Checklist antes de publicar
- Área útil (ou construída) em um campo, área total (ou terreno) em outro, os mesmos números no título e no texto.
- Bairro conforme IPTU.
- Vagas, quartos e suítes nos campos numéricos, não só na descrição.
- Preço definido, com condomínio e IPTU informados.
- Data: se mudar o preço, republique e registre desde quando vale.
- Se for anúncio de corretor, CRECI legível e ficha revisada por você.
E, antes de tudo isso, saiba o valor. Um anúncio consistente com um preço fora da faixa é um anúncio consistente que não vende. A avaliação do Imovel90 busca os anúncios reais do seu bairro, descarta os que não servem pelos mesmos critérios descritos aqui, e abre a conta com três preços: venda rápida, venda em até 90 dias e sem pressa. Descubra quanto vale o seu imóvel antes de escrever a primeira linha do anúncio.
Metodologia e datas
- Base do Imovel90: 73 avaliações realizadas entre 19/08 e 27/09/2026 e os 337 anúncios comparáveis lidos para elas; recorte dos últimos 20 dias com 12 avaliações (8 casas, 2 casas em condomínio, 2 apartamentos) e 41 anúncios. Exclusões registradas pelo motor conforme os critérios do método comparativo da NBR 14653 (saneamento por dispersão, consistência de área com a página de origem, compatibilidade de mercado). A checagem de área contra a página do anúncio passou a ser registrada em setembro de 2026, por isso o mês de agosto não tem casos desse motivo. Extração em 27/09/2026.
- Selic: decisão do Copom de 16/09/2026.
- Regra do CRECI em anúncios: Resolução COFECI nº 1.065/2007, conforme divulgação do CRECI-ES.
- NBR 14653-2: norma da ABNT para avaliação de imóveis urbanos, que define os requisitos dos dados de mercado usados no método comparativo.
O panorama completo do mês, com FipeZap, IGMI-R e o preço pedido por cidade, está no Observatório do preço de setembro de 2026.
Fontes
- CRECI-ES: Resolução do COFECI nº 1.065/2007 estabelece regras de divulgação para corretores de imóveis (consultado em 27/09/2026)
- Copom corta a Selic para 13,75% ao ano e sinaliza cautela (16/09/2026)
- Forbes: como a ata do Copom mexeu com as apostas para a Selic (setembro de 2026)
- Índice FipeZap: metodologia e cobertura (Fipe)
- Imovel90: Observatório do preço de setembro de 2026 (base de 283 anúncios lidos)