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Recebi uma proposta abaixo do preço: o guia completo da contraproposta
Dois em cada três imóveis no Brasil fecham com desconto — proposta baixa é o normal estatístico, não ofensa. Este guia mostra como ler a proposta, calcular quanto ceder, escrever a contraproposta e onde a negociação vira contrato (arras). Com dados FipeZAP, IGMI-R/Abecip e Código Civil, consultados em 23/08/2026.
Publicado em · 10 min de leitura
Chegou a proposta. Você pediu R$ 520 mil e o comprador ofereceu R$ 455 mil. A primeira reação quase sempre é a mesma: "esse cara está me zoando".
Ele provavelmente não está. Dois em cada três imóveis vendidos no Brasil fecham abaixo do preço anunciado. A proposta baixa não é o desvio — é o comportamento padrão do mercado brasileiro. O que separa quem vende bem de quem vende mal não é receber ou não uma oferta abaixo do pedido: é o que faz nos dez minutos seguintes.
Este guia é sobre esses dez minutos.
O dado que muda sua reação
O Raio-X FipeZAP do 1º trimestre de 2026 mediu exatamente isso: 67% das transações foram fechadas com algum desconto sobre o valor anunciado, contra 61% um ano antes. É quase o recorde da série histórica, de 70%.
E o tamanho do abatimento:
| Medida | Valor |
|---|---|
| Transações fechadas com desconto | 67% |
| Desconto médio (todas as transações) | 9% |
| Desconto médio (só as que tiveram abatimento) | 13% |
Fonte: Raio-X FipeZAP, 1º trimestre de 2026. Consultado em 23/08/2026.
Guarde o número 13%. Ele é a régua contra a qual você vai medir a proposta que recebeu. Uma oferta 12,5% abaixo do pedido — como os R$ 455 mil do exemplo — está dentro do desconto médio nacional. Ela não é um absurdo. É a média.
Isso não significa que você deva aceitar. Significa que a reação certa não é indignação: é cálculo.
Por que as propostas estão mais agressivas em 2026
Três forças empurram o comprador para baixo neste momento, e vale entender cada uma antes de sentar à mesa.
1. O crédito ainda é caro. O Copom reduziu a Selic para 14,00% ao ano na reunião de 5 de agosto de 2026 — quarto corte consecutivo, mas ainda um patamar alto. Comprador financiando enfrenta parcela pesada, e cada real a menos no preço é alívio direto no orçamento mensal dele. Quando o crédito aperta, a negociação vira o principal instrumento de ajuste.
2. O preço pedido perdeu a referência. Aqui está a informação que quase nenhum vendedor tem, e que muda a leitura de qualquer proposta:
- O FipeZAP, que mede preços de anúncio, subiu 5,46% em 12 meses (informe de julho de 2026).
- O IGMI-R/Abecip, que mede laudos de avaliação de imóveis efetivamente financiados, subiu 17,49% em 12 meses (dado de junho de 2026, divulgado em 30/07/2026). Em 2025 o índice fechou em +18,64%, a maior alta da série iniciada em 2016.
São cerca de 12 pontos percentuais de diferença medindo o mesmo mercado. Um índice olha o que se pede; o outro, o que os bancos reconhecem no fechamento. Quando as duas curvas se descolam desse jeito, o preço de anúncio deixa de ser um sinal confiável — e o comprador, que costuma consultar mais fontes que o vendedor, sabe disso. Se você quiser entender por que os índices discordam e qual seguir, escrevemos um guia inteiro sobre isso.
3. O comprador tem mais informação que você. Ele viu oito imóveis parecidos no mesmo mês. Você viu o seu. Essa assimetria é o verdadeiro motivo pelo qual tantas negociações terminam mal para quem vende.
Antes de responder: as três perguntas
Não responda nada — nem "vou pensar" — antes de responder isto para você mesmo.
1. Meu preço pedido é preço ou é desejo?
Esta é a pergunta que dói. Boa parte das propostas "absurdas" não é absurda: é a primeira vez que alguém disse em voz alta que o anúncio está acima do mercado. Se o seu preço saiu de "o vizinho vendeu por X" ou "eu preciso de Y para comprar o próximo", ele nunca foi um preço — foi um desejo com um número na frente.
A forma de sair da dúvida é ter uma faixa fundamentada antes da conversa. O Imovel90 faz essa avaliação buscando anúncios reais e comparáveis do seu entorno, conferindo um a um e abrindo a conta pelo método comparativo direto da NBR 14653 — a norma técnica brasileira de avaliação de bens. O resultado não é um número solto: é um valor central, uma faixa provável de negociação e três preços de referência conforme a pressa que você tem. Se você nunca viu como esse cálculo funciona por dentro, comece pelo guia da avaliação.
2. Há quanto tempo o imóvel está anunciado?
O tempo é o dado mais honesto que existe sobre o seu preço.
- Menos de 30 dias com visitas frequentes: você tem poder. A proposta baixa é sondagem.
- 60 a 90 dias com poucas visitas: o mercado já respondeu — o problema provavelmente é o preço, e essa proposta pode ser a melhor que vai aparecer. Vale ler as causas reais de um imóvel que não vende.
- Mais de 6 meses: o anúncio está "queimado". Compradores recorrentes já viram, já descartaram, e assumem que há algo errado.
3. Quem é esse comprador?
Uma proposta de R$ 455 mil à vista, de quem já vendeu o imóvel anterior, vale mais que uma proposta de R$ 480 mil sujeita a aprovação de financiamento que pode não sair. Proposta não é só número: é número, prazo e risco. Pergunte, sempre e antes de qualquer contraproposta:
- É à vista, financiado ou consórcio?
- Se financiado: já tem carta ou pré-aprovação, e de qual banco?
- Há imóvel a vender antes (a temida "venda casada")?
- Qual o prazo desejado para assinar e para desocupar?
Uma dessas respostas costuma valer mais dinheiro que dois pontos percentuais de desconto.
A régua: quanto vale ceder
Com os três dados na mão, use a régua abaixo. Ela parte do preço pedido, não do que você sonha receber.
| Proposta está | Leitura | Resposta recomendada |
|---|---|---|
| Até 5% abaixo | Oferta forte | Contraproposta curta; feche rápido |
| 5% a 13% abaixo | Dentro da média nacional (9% a 13%) | Negocie de verdade — aqui mora o acordo |
| 13% a 20% abaixo | Agressiva, mas viável | Contraproposta com fundamentação |
| Mais de 20% abaixo | Ou o comprador está testando, ou seu preço está fora | Não recuse: pergunte como ele chegou nesse número |
A última linha é a mais importante. Nunca recuse uma proposta baixa sem antes perguntar como o comprador chegou nela. Se ele tiver três comparáveis melhores que os seus, você acabou de ganhar a informação mais valiosa da negociação — de graça. Se ele não tiver nenhum, você acabou de descobrir que era só um teste, e o poder virou de lado.
Como escrever a contraproposta
A contraproposta tem quatro partes. Nessa ordem.
1. Agradeça e valide. "Obrigado pela proposta, é uma oferta séria e eu levei a sério." Custa uma linha e mantém o comprador na mesa. Vendedor ofendido é vendedor que perde comprador real.
2. Ancore em fato, não em sentimento. Errado: "não dá, eu preciso desse valor". Certo: "os três apartamentos comparáveis vendidos no meu quarteirão nos últimos 90 dias saíram entre R$ 8.900 e R$ 9.400 por m²; o meu, com vaga coberta e reforma de 2024, está anunciado a R$ 9.100". O que o comprador precisa do outro lado não é a sua necessidade — é uma razão.
3. Ceda menos da metade da diferença. Se a distância é de R$ 65 mil, não parta o meio. Ofereça algo entre R$ 20 mil e R$ 28 mil de movimento e deixe espaço para um segundo passo. Negociação em que o vendedor rebaixa metade na primeira resposta ensina o comprador a pedir de novo.
4. Prenda a um prazo e a uma condição. "Fecho a R$ 492 mil se a proposta for formalizada até sexta e com entrada de 20%." Prazo transforma consideração em decisão.
Se quiser ajuda para montar essa resposta com os números do seu caso, o Imovel90 tem uma ferramenta de negociação que parte da faixa calculada do seu imóvel e monta a contraproposta com a fundamentação junto.
As moedas que não são preço
O erro mais caro da negociação imobiliária é tratá-la como uma única variável. Não é. Antes de ceder mais um real, troque por uma destas:
- Prazo de desocupação. Trinta ou sessenta dias a mais valem dinheiro real para quem está pagando aluguel — dos dois lados.
- Móveis planejados, ar-condicionado, cortinas. Custam pouco em valor de revenda e valem muito na percepção do comprador.
- Data de assinatura. Se ele tem pressa, a pressa dele é a sua moeda.
- Divisão de custos. ITBI e escritura são, por lei, encargo do comprador na prática de mercado, mas viram peça de negociação. Antes de oferecer isso, saiba exatamente o que cada item custa — está tudo em quanto custa vender um imóvel.
- Reforma pontual. Consertar a infiltração do banheiro pode custar R$ 3 mil e destravar R$ 15 mil de desconto pedido.
Onde a conversa vira contrato: o sinal (arras)
Proposta aceita por WhatsApp não é negócio fechado. O que costura o acordo é o sinal, que o Código Civil chama de arras (artigos 417 a 420). Vale entender a diferença, porque ela decide quem paga a conta se alguém desistir:
- Arras confirmatórias (art. 418): o padrão quando o contrato não diz nada. Se quem deu o sinal desistir, perde o valor. Se quem recebeu desistir, devolve o sinal mais o equivalente — na prática, em dobro — com correção, juros e honorários. O art. 419 ainda permite pedir indenização suplementar se o prejuízo for maior.
- Arras penitenciais (art. 420): só existem se o contrato disser expressamente que há direito de arrependimento. Aí o limite é justamente o sinal: perde-se o valor ou devolve-se em dobro, e não cabe indenização suplementar.
A diferença entre as duas está em uma cláusula. Leia o contrato antes de assinar e, se o valor envolvido for relevante, passe o texto por um advogado ou pelo cartório — isto aqui é explicação da regra, não consultoria jurídica para o seu caso.
Cinco erros que custam caro
- Responder no calor. Toda proposta merece pelo menos algumas horas. Nenhuma merece resposta em cinco minutos.
- Dizer "não" sem contraproposta. "Não" encerra a conversa. Um número encerra a proposta e mantém a conversa.
- Revelar sua urgência. "Preciso vender rápido porque comprei outro" vale, sozinho, uns bons pontos percentuais para o outro lado.
- Negociar sem saber sua faixa. Quem não sabe o próprio piso cede até onde o cansaço mandar.
- Confundir preço alto com margem de negociação. Anunciar 20% acima para "ter espaço" costuma ter o efeito oposto: o imóvel não aparece nos filtros de busca do comprador certo, e quem chega já chega descontando.
O checklist da resposta
Antes de mandar sua contraproposta, confira:
- [ ] Sei a faixa fundamentada do meu imóvel, com comparáveis reais
- [ ] Sei há quantos dias estou anunciado e quantas visitas tive
- [ ] Perguntei forma de pagamento, prazo e se há imóvel a vender antes
- [ ] Perguntei como o comprador chegou ao número dele
- [ ] Minha contraproposta cede menos da metade da diferença
- [ ] Ancorei em comparáveis, não em necessidade
- [ ] Ofereci ao menos uma moeda que não é preço
- [ ] Coloquei prazo e condição
- [ ] Sei o que o contrato diz sobre arras antes de receber o sinal
Um último recado, e vale mais que qualquer tática: nenhuma negociação bem conduzida garante venda. O que uma faixa fundamentada faz é aumentar a probabilidade estimada de fechar dentro do prazo que você quer — e reduzir a chance de você aceitar, por cansaço, um valor que não precisava aceitar.
Se você ainda não sabe qual é a sua faixa, descubra antes de responder a proposta. Depois que você manda um número, ele vira o teto da conversa.
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Dados de mercado consultados em 23/08/2026. Índices e taxas mudam mensalmente — confira a data de cada informe antes de usar os números em uma negociação.
Fontes
- Raio-X FipeZAP 1º trimestre de 2026 — 67% das vendas com desconto, desconto médio de 9% (13% entre as que tiveram abatimento)
- Índice FipeZAP de Venda Residencial — informe de julho de 2026 (+0,46% no mês, +5,46% em 12 meses)
- IGMI-R/Abecip — junho de 2026: +0,38% no mês e +17,49% em 12 meses (divulgado em 30/07/2026)
- IGMI-R/Abecip — 2025 fechou com alta de 18,64%, maior da série histórica
- Copom reduz a Selic para 14,00% ao ano (reunião de 5 de agosto de 2026)
- Código Civil (Lei 10.406/2002), artigos 417 a 420 — Das Arras ou Sinal
- ABNT NBR 14653 — Avaliação de bens (método comparativo direto de dados de mercado)